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Saúde

Como usar a Psicologia para lidar com o estresse – Com estratégias Eficazes para o Bem-Estar.

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Bem estar

O estresse é uma das grandes epidemias silenciosas do mundo contemporâneo. No Brasil, dados do IBGE e da OMS indicam que mais de 70% da população economicamente ativa relata níveis elevados de estresse, agravados por fatores como pressão no trabalho, trânsito caótico, instabilidade econômica e o uso constante de redes sociais. Embora o estresse seja uma resposta natural do organismo (a famosa reação “lutar ou fugir” descrita por Walter Cannon), quando se torna crônico, ele pode gerar ansiedade, depressão, problemas cardiovasculares, enfraquecimento do sistema imunológico e burnout.
A boa notícia é que a psicologia oferece ferramentas poderosas, baseadas em evidências científicas, para gerenciar o estresse de forma eficaz. Não se trata de eliminar o estresse completamente, o que seria impossível e, em doses moderadas, até útil, mas de desenvolver resiliência e mudar a relação que mantemos com os estressores.
Compreendendo o Estresse pela Ótica Psicológica
A psicologia cognitiva, especialmente a partir dos trabalhos de Richard Lazarus e Susan Folkman, diferencia o estresse como resultado da avaliação que fazemos de uma situação. Não é o evento em si que estressa, mas a percepção de que as demandas excedem nossos recursos. Essa avaliação acontece em duas etapas: primária (o evento é uma ameaça?) e secundária (tenho condições de lidar com ele?).
Quando interpretamos uma situação como ameaçadora e nos sentimos impotentes, o corpo ativa o eixo HPA (hipotálamo-pituitária-adrenal), liberando cortisol. Níveis elevados e prolongados de cortisol são tóxicos para o hipocampo, afetando memória, concentração e humor.
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), considerada padrão-ouro no tratamento do estresse, parte exatamente dessa premissa: modificar os pensamentos automáticos disfuncionais reduz a intensidade emocional.
Técnicas Psicológicas Comprovadas
Reestruturação Cognitiva
Identifique pensamentos catastróficos (“Se eu não entregar isso hoje, vou ser demitido e tudo vai desabar”) e substitua por versões mais realistas e equilibradas (“Esta entrega é importante, mas já superei prazos apertados antes. Posso priorizar e pedir ajuda se necessário”). Praticar esse exercício diariamente, com um diário de pensamentos, reduz significativamente os níveis de estresse em poucas semanas.
Mindfulness e Meditação
Jon Kabat-Zinn desenvolveu o programa MBSR (Mindfulness-Based Stress Reduction) na Universidade de Massachusetts, com resultados robustos em dezenas de estudos. Praticar mindfulness ensina a observar os pensamentos e sensações sem julgamento, interrompendo o ciclo ruminativo. Apenas 10 minutos diários já produzem redução mensurável de cortisol.
Técnicas de Relaxamento
• Respiração diafragmática 4-7-8 (inspire 4s, segure 7s, expire 8s): ativa o sistema nervoso parassimpático.
• Relaxamento Muscular Progressivo de Jacobson: tensionar e relaxar grupos musculares sistematicamente.
• Visualização guiada: imaginar cenários tranquilos com todos os sentidos ativa as mesmas áreas cerebrais que a experiência real.
Aceitação e Compromisso (ACT – Acceptance and Commitment Therapy)
Em vez de lutar contra o estresse, a ACT propõe aceitá-lo como uma experiência transitória enquanto nos comprometemos com ações alinhadas aos nossos valores. Essa abordagem é especialmente útil quando o estresse vem de fontes difíceis de controlar (doenças na família, crise econômica).
Gestão do Tempo e Comportamentos
A psicologia comportamental enfatiza a importância de rotinas. Técnicas como o método Pomodoro (25 minutos de foco + 5 de pausa), estabelecimento de limites claros (“não” assertivo) e prática regular de exercício físico (que libera endorfina e BDNF, fator neurotrófico derivado do cérebro) são intervenções poderosas.
O Papel das Relações e do Autocuidado
A psicologia social e a teoria do apego mostram que o suporte social é um dos maiores buffers contra o estresse. Manter conexões significativas, mesmo que virtuais, reduz a sensação de isolamento. Paradoxalmente, o perfeccionismo e o “foco excessivo no trabalho” muitas vezes nos afastam exatamente do que mais precisamos.
O autocuidado não é luxo, mas necessidade psicológica. Sono de qualidade (7-9 horas), alimentação equilibrada, contato com a natureza e hobbies que geram “flow” (estado de fluxo descrito por Mihaly Csikszentmihalyi) são pilares fundamentais.
Quando Buscar Ajuda Profissional
É importante diferenciar estresse “normal” de um quadro clínico. Sinais de alerta incluem: insônia crônica, irritabilidade constante, ataques de pânico, isolamento social, uso aumentado de álcool ou outras substâncias, e pensamentos de morte. Nesses casos, a psicoterapia (TCC, ACT ou psicodinâmica, dependendo do perfil) combinada, quando necessário, com acompanhamento psiquiátrico, faz toda a diferença.
Conclusão: Psicologia como Ferramenta de Empoderamento
Usar a psicologia para lidar com o estresse não significa tornar-se imune aos problemas da vida, mas desenvolver uma mente mais flexível, consciente e compassiva consigo mesma. As técnicas descritas não exigem grandes investimentos financeiros, apenas consistência e prática.
Comece pequeno, escolha uma única técnica desta semana: talvez o diário cognitivo ou 10 minutos de mindfulness pela manhã, com o tempo, você perceberá que o estresse continua existindo, mas perde o poder de dominá-lo.
A resiliência psicológica é como um músculo: quanto mais treinamos, mais forte fica. Em um mundo que não para, a capacidade de pausar, observar e escolher a resposta é talvez a habilidade mais revolucionária que podemos cultivar.
Pratique, persiste, cuide da sua mente como cuida do seu corpo. O resultado é uma vida não necessariamente mais fácil, mas muito mais plena e com maior capacidade de enfrentar os desafios inevitáveis da existência humana.
Referências principais (para aprofundamento):
• Kabat-Zinn, J. Full Catastrophe Living.
• Beck, A. Terapia Cognitiva.
• Harris, R. A Armadilha da Felicidade (ACT).
• Estudos da APA (American Psychological Association) sobre estresse crônico.

Ricardo Lopes Garcia formado em Serviço Social, Psicologia e Psicanálise. Coordenador e professor na formação de Psicanálise Clínica do Instituto Vida Plena Brasil. Escritor e palestrante.

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