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Saúde

Quando a ansiedade aparece no sorriso: como a saúde mental pode afetar a saúde bucal

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Estresse, ansiedade e outros transtornos emocionais podem se manifestar na boca por meio do bruxismo, alterações nos hábitos de higiene, medo do dentista e até piora da qualidade de vida. Entender essa conexão é fundamental para cuidar do paciente de forma integral.

Quando pensamos em ansiedade, é comum associarmos o problema a sintomas como preocupação excessiva, dificuldade para dormir, palpitações ou sensação constante de tensão. Mas existe uma parte do corpo que também pode dar sinais de que algo não vai bem: a boca.

Ranger ou apertar os dentes, sentir dor na mandíbula, apresentar desgaste dentário, negligenciar a higiene oral ou evitar consultas odontológicas podem fazer parte de um cenário em que saúde mental e saúde bucal se encontram.

E essa relação não é apenas uma impressão clínica. A literatura científica vem demonstrando associações importantes entre condições psicológicas e diferentes aspectos da saúde bucal.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 359 milhões de pessoas viviam com algum transtorno de ansiedade em 2021, o equivalente a aproximadamente 4,4% da população mundial naquele ano. Os transtornos de ansiedade são atualmente considerados os transtornos mentais mais comuns no mundo.

Ao mesmo tempo, as doenças bucais continuam entre os problemas de saúde mais prevalentes globalmente. A OMS estima que elas afetem cerca de 3,7 bilhões de pessoas.

Mas como essas duas áreas podem se conectar?

O corpo sob tensão

Um dos sinais mais conhecidos dessa relação é o bruxismo, caracterizado por atividades repetitivas dos músculos da mastigação, como apertar ou ranger os dentes, podendo ocorrer durante o sono ou enquanto a pessoa está acordada.

É importante fazer uma ressalva: bruxismo não deve ser considerado simplesmente uma consequência da ansiedade. Ele é um comportamento multifatorial, influenciado por fatores biológicos, psicológicos e comportamentais.

Ainda assim, o estresse parece ter papel relevante.

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada na Frontiers in Neurology avaliou estudos sobre estresse e bruxismo e encontrou que adultos submetidos a estresse apresentaram cerca de duas vezes mais chances de apresentar bruxismo em comparação com indivíduos sem estresse (OR 2,07; IC95% 1,51–2,83). Os próprios autores, entretanto, classificaram a certeza dessa evidência como baixa e destacaram a necessidade de estudos mais robustos.

Na prática, isso significa que aquele paciente que chega ao consultório relatando que “anda apertando muito os dentes” durante períodos de maior tensão merece uma avaliação cuidadosa.

O problema é que a consequência pode ultrapassar o simples desconforto.

O apertamento e o ranger podem estar associados a sobrecarga dos músculos mastigatórios, dor orofacial, desgaste dos dentes e sintomas relacionados à articulação temporomandibular. Em pacientes com disfunções temporomandibulares, estudos recentes também encontram associação frequente entre ansiedade, bruxismo, alterações do sono e dor.

Quando cuidar da boca deixa de ser prioridade

Existe outro caminho pelo qual a saúde mental pode influenciar a saúde bucal: o comportamento.

Em períodos de sofrimento psicológico, tarefas cotidianas que parecem simples — escovar os dentes, usar fio dental, marcar uma consulta ou manter um tratamento — podem perder espaço na rotina.

Uma revisão sistemática sobre saúde bucal de pessoas com depressão identificou justamente essa relação. O trabalho, que reuniu 26 estudos originais, apontou que a gravidade da depressão, medicamentos, comorbidades, medo e ansiedade odontológica, condições socioeconômicas e hábitos podem contribuir para problemas de saúde bucal.

Isso ajuda a explicar por que a saúde bucal não pode ser analisada isoladamente.

Quando a higiene diminui e as consultas são adiadas, problemas inicialmente simples podem evoluir. Cárie, inflamação gengival e doença periodontal podem avançar silenciosamente, especialmente quando o acompanhamento profissional é interrompido.

Um estudo realizado com 9.799 adultos nos Estados Unidos, utilizando dados do NHANES de 2009–2014, encontrou associação entre sintomas depressivos e pior saúde bucal. Pessoas com sintomas depressivos graves apresentaram maiores chances de periodontite leve; além disso, indivíduos com sintomas depressivos moderados apresentaram maior número médio de dentes ausentes.

Isso não significa que depressão ou ansiedade sejam, sozinhas, responsáveis por cáries ou periodontite. Fatores como alimentação, higiene, tabagismo, acesso ao dentista, condições socioeconômicas, medicamentos e doenças sistêmicas também interferem.

A própria OMS ressalta que as doenças bucais são multifatoriais e compartilham fatores de risco com outras doenças crônicas, como alimentação inadequada, tabaco e consumo de álcool.

E quando o medo é justamente do dentista?

Existe ainda uma relação particularmente interessante: a ansiedade pode levar a pessoa a evitar o dentista, e a piora da saúde bucal pode aumentar a ansiedade.

É um ciclo.

A pessoa sente medo → adia a consulta → o problema bucal pode evoluir → o tratamento pode se tornar mais complexo → aumenta a preocupação → e a próxima consulta passa a ser ainda mais assustadora.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2021, que reuniu 72.577 adultos, estimou a prevalência mundial de medo e ansiedade odontológica em 15,3%. A prevalência de níveis elevados foi de 12,4%, enquanto a ansiedade odontológica severa foi estimada em 3,3%.

Uma análise mais recente, publicada em 2026 e baseada especificamente na Modified Dental Anxiety Scale, encontrou prevalência agrupada de 18% para níveis elevados de ansiedade odontológica, embora tenha identificado grande heterogeneidade entre os estudos.

Ou seja: não é incomum encontrar pacientes que não deixam de cuidar dos dentes por falta de informação, mas porque sentem medo.

E esse medo precisa ser levado a sério.

A boca também influencia a mente

A relação não acontece apenas no sentido “mente → boca”.

A direção contrária também merece atenção.

Dor, perda dentária, alterações na aparência do sorriso, dificuldades para mastigar, falar ou sorrir podem interferir na autoestima, na vida social e no bem-estar.

A OMS, inclusive, considera que saúde bucal envolve muito mais do que ausência de doença: ela inclui aspectos psicossociais como autoconfiança, bem-estar e capacidade de socializar e trabalhar sem dor, desconforto ou constrangimento.

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2024 analisou 15 estudos, envolvendo 14.419 participantes de nove países, e encontrou associações entre qualidade de vida relacionada à saúde bucal e ansiedade e depressão. A associação com ansiedade foi fraca, mas estatisticamente identificada; os autores ressaltaram, entretanto, que todos os estudos incluídos eram transversais e apresentavam elevada heterogeneidade.

Isso é importante porque nos lembra de uma coisa: associação não significa necessariamente causalidade.

Uma pessoa pode apresentar ansiedade por ter problemas bucais, ter problemas bucais em parte relacionados a alterações comportamentais associadas à ansiedade, ou vivenciar as duas situações simultaneamente.

Na vida real, muitas vezes, os caminhos se cruzam.

O que o dentista pode perceber?

A consulta odontológica pode ser um momento importante para identificar sinais que vão além dos dentes.

Um paciente pode apresentar:

* desgaste dentário incompatível com sua idade;
* marcas de apertamento ou sinais associados ao bruxismo;
* dor ou fadiga nos músculos da mastigação;
* dor na região da articulação temporomandibular;
* dificuldade para manter uma rotina de higiene oral;
* aumento de placa bacteriana e inflamação gengival;
* consultas frequentemente desmarcadas ou tratamentos abandonados;
* medo intenso de procedimentos odontológicos;
* queixas recorrentes de dor sem uma explicação exclusivamente odontológica.

Nenhum desses sinais, isoladamente, permite diagnosticar ansiedade ou depressão.

Mas eles podem abrir espaço para uma conversa.

E essa conversa precisa acontecer sem julgamento.

Em vez de perguntar apenas “por que você não escovou os dentes?”, por exemplo, o profissional pode tentar compreender se houve alguma mudança na rotina, se o paciente está passando por um período de estresse ou se existe alguma dificuldade emocional interferindo no autocuidado.

O cuidado precisa ser integrado

A conexão entre saúde mental e saúde bucal mostra por que o modelo de cuidado fragmentado pode ser insuficiente.

O dentista não precisa — e não deve — assumir o papel de psicólogo ou psiquiatra. Da mesma forma, profissionais de saúde mental não substituem a avaliação odontológica.

Mas ambos podem reconhecer sinais de alerta e encaminhar o paciente quando necessário.

O tratamento da ansiedade e de outros transtornos mentais pode fazer parte da recuperação da rotina e do autocuidado. Ao mesmo tempo, controlar dor, tratar doenças bucais e reduzir o medo odontológico pode melhorar a qualidade de vida e facilitar a continuidade do cuidado.

Essa visão interdisciplinar é especialmente importante porque a saúde bucal é parte da saúde geral, e não uma área separada dela.

Mais do que cuidar do sorriso

Talvez a principal mensagem seja justamente essa: um sorriso saudável não depende apenas de uma escova de dentes.

Ele também depende de acesso ao atendimento, alimentação, hábitos, condições sociais, sono, comportamento e, em determinados casos, da maneira como uma pessoa está lidando emocionalmente com a própria vida.

Ansiedade não significa necessariamente bruxismo. Depressão não significa necessariamente cárie ou doença periodontal. E uma alteração na boca não deve ser utilizada para diagnosticar um transtorno mental.

Mas os sinais podem conversar entre si.

Por isso, diante de um paciente que range os dentes, abandona o tratamento, apresenta piora repentina da higiene ou demonstra medo intenso de atendimento odontológico, talvez seja necessário olhar além da boca.

Às vezes, cuidar do sorriso também significa perguntar como aquela pessoa está.

E, em uma época em que saúde mental deixou de ser um assunto restrito aos consultórios de psicologia e psiquiatria, reconhecer essa conexão é também uma forma de fazer odontologia mais humana, preventiva e integral.

Dra. Bruna Dantas Pereira Cesar – CRORJ 55.818
Especialista em Harmonização Orofacial; Saúde Pública e Implantodontia.

Referências utilizadas:

ALIMORADI, Z. et al. Meta-analysis with systematic review to synthesize associations between oral health related quality of life and anxiety and depression. BDJ Open, v. 10, n. 1, p. 9, 2024. DOI: 10.1038s41405-024-00191-x.

CHEMELO, V. D. S. et al. Is there association between stress and bruxism? A systematic review and meta-analysis. Frontiers in Neurology, v. 11, p. 590779, 2020. DOI: 10.3389/fneur.2020.590779.

SILVEIRA, E. R. et al. Estimated prevalence of dental fear in adults: a systematic review and meta-analysis. Journal of Dentistry, v. 108, p. 103632, 2021. DOI: 10.1016/j.jdent.2021.103632.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Oral health. Geneva: World Health Organization, 2025.

POLMANN, H. et al. Association between sleep bruxism and stress symptoms in adults: a systematic review and meta-analysis. Journal of Oral Rehabilitation, v. 48, n. 5, p. 621–631, 2021. DOI: 10.1111/joor.13142.

Cirurgiã-Dentista | Harmonizadora Facial e Implantodontista | Flamenguista | Amante de Viagens e de Shih-Tzu

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