Saúde
Por que não denunciar?
Por Ingrid Oliveira.
Não denuncie.
Não denuncie se a prioridade é preservar a imagem dele, enquanto você perde, pouco a pouco, a própria saúde mental.
Não denuncie se é mais importante que os vizinhos continuem dizendo que ele é um “homem de família”, um “cidadão de bem”, um sujeito educado, respeitado e incapaz de fazer mal a alguém — enquanto, dentro de casa, você vive sob ameaça, controle, humilhação e medo.
Não denuncie.
Afinal, para algumas pessoas, a reputação do agressor parece valer mais do que a dignidade da mulher que sofre a violência.
Não denuncie se ele ocupa uma posição de liderança religiosa e você teme que a denúncia “manche o nome da igreja”.
Deixe tudo como está.
Deixe que ele continue sendo chamado de exemplo, de homem de Deus, de conselheiro, de referência moral. Deixe que a autoridade religiosa continue sendo usada como instrumento de manipulação, silenciamento e abuso. Deixe que possíveis vítimas continuem sem saber que também podem ser vítimas de alguém que aprendeu a usar a fé para conquistar confiança e controlar pessoas.
Não denuncie para proteger a carreira dele.
Porque, afinal, o que são alguns anos de assédio moral, humilhação, perseguição e adoecimento diante da necessidade de preservar o cargo de um homem dentro de uma empresa?
Não denuncie.
Não atrapalhe a promoção.
Não cause constrangimento.
Não faça perguntas.
Não coloque em risco a reputação de quem sempre teve mais liberdade para circular, falar, acusar e ser acreditado.
E, principalmente, não denuncie se você estiver preocupada com o desconforto que a denúncia poderá causar.
Porque a violência é realmente muito mais confortável quando permanece escondida.
Este é o absurdo que precisa ser exposto.
Quando uma mulher denuncia, frequentemente não é apenas o agressor que aparece diante dela. Aparecem também os julgamentos, as dúvidas, a relativização, os conselhos para que ela “pense nos filhos”, “preserve a família”, “não destrua uma carreira”, “não prejudique a igreja”, “não faça uma acusação tão séria sem provas”.
Perguntam o que ela fez?
Por que continuou?
Por que voltou?
Por que demorou?
Por que não saiu antes?
Por que não percebeu?
Por que não contou?
E, tantas vezes, quase ninguém pergunta ao agressor por que ele escolheu violentar.
Há uma ironia cruel nisso tudo: espera-se que a mulher calcule cuidadosamente as consequências da denúncia enquanto, no momento da violência, ninguém exigiu do agressor esse mesmo nível de prudência.
A mulher deveria pensar na reputação.
Ele, aparentemente, não precisava pensar na dignidade dela.
A mulher deveria pensar na família.
Ele não pensou no impacto de destruí-la emocionalmente.
A mulher deveria pensar na igreja.
Ele não pensou no poder que estava utilizando para manipular.
A mulher deveria pensar no emprego dele.
Ele não pensou no dano que causava ao ambiente de trabalho.
A pergunta “por que denunciar?” precisa, portanto, ser invertida.
Por que a sociedade ainda espera que a mulher suporte a violência para preservar a imagem de quem a pratica?
Denunciar não é um ato simples. Para muitas mulheres, envolve medo, dependência financeira, filhos, vínculos familiares, exposição, retaliação e riscos reais. Por isso, ninguém deve transformar a denúncia em uma obrigação moral simplista.
Mas também não podemos continuar transformando o silêncio em virtude.
O silêncio não torna o agressor menos violento.
A denúncia não destrói a reputação de um homem inocente. Quando os fatos são apurados pelas instituições competentes, o que está em jogo é responsabilização, proteção e justiça.
E talvez seja justamente isso que incomode tanto.
Não é a denúncia que destrói a imagem de alguém.
É a possibilidade de que, por trás da imagem, finalmente alguém enxergue a violência.
Então, por que não denunciar?
Não denuncie, se preferir preservar o conforto de todos.
Mas não chame esse silêncio de paz.
Porque, quando uma mulher precisa desaparecer emocionalmente para que um homem continue sendo admirado, isso não é paz.
É violência protegida pela conveniência.
E toda vez que a sociedade escolhe proteger a reputação do agressor em vez de escutar a vítima, ela ajuda a construir o ambiente em que a próxima violência poderá acontecer.
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