Política
Entre o palanque e a mente
O leitor mais atento da TV Metropolitana e da Coluna JR certamente percebeu que as convenções partidárias seguem ocupando o noticiário. É nelas que os partidos oficializam seus candidatos e começam a desenhar o tom da campanha que, em breve, tomará conta das ruas, das redes sociais e, inevitavelmente, das conversas de família.
O espetáculo da democracia já começou.
Ainda faltam discursos, alianças de última hora e algumas definições. Mas uma coisa já está garantida: nos próximos meses, candidatos posaram de salvadores da pátria, como se tivessem descoberto, de uma hora para outra, a solução para problemas que atravessam décadas. Uns prometeram revolucionar a saúde. Outros juraram acabar com a corrupção. Haverá quem assegure segurança absoluta, educação de excelência e prosperidade imediata.
E, como sempre, haverá quem acredite.
Como psicólogo, talvez o aspecto que mais me chama a atenção não esteja nos palanques, mas no comportamento das pessoas diante deles. A política deixou de ocupar apenas o espaço público e passou a invadir a intimidade. Entrou na sala de jantar, nos grupos de família, nas amizades de décadas e até nos consultórios.
A psicologia conhece esse movimento. Gostamos de acreditar que decidimos pela razão, mas, em grande parte das vezes, a emoção chega primeiro. Depois, a mente trabalha para justificar aquilo que o coração, a identidade ou o grupo já haviam escolhido.
É justamente aí que entra a psicologia das massas. Quando nos sentimos pertencentes a um grupo, tendemos a reduzir nossa capacidade crítica em favor da identificação coletiva. O indivíduo passa a falar como a multidão, reagir como a multidão e, muitas vezes, atacar como a multidão. O outro deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a representar uma ameaça.
Os efeitos desse fenômeno são visíveis. Famílias deixaram de celebrar juntas porque a política falou mais alto. Irmãos romperam relações. Pais e filhos passaram meses sem se dirigir à palavra. Amizades construídas ao longo de uma vida foram encerradas por causa de uma eleição. E, infelizmente, tudo indica que veremos esse roteiro novamente.
O preço também aparece na saúde mental. A exposição contínua a notícias, discussões e conflitos alimenta ansiedade, irritabilidade, sensação permanente de ameaça e um estado de vigilância quase constante. Há pessoas que acordam e dormem consumindo conteúdo político, como se precisassem defender, a qualquer momento, um lado da disputa. Isso cobra um preço emocional.
Outro ingrediente desse cenário é a religião. A fé orienta valores e inspira escolhas. É natural que influencie o voto. O problema começa quando as religiões se transformam em palanques e candidatos passam a ocupar um lugar que jamais deveria lhes pertencer. Democracia não combina com messianismo. Políticos administram recursos públicos; não distribuem salvação.
Enquanto isso, as redes sociais cumprem seu papel. O algoritmo não recompensa equilíbrio. Recompensa indignação. Quanto maior a revolta, maior o alcance. Quanto mais simples a resposta para um problema complexo, maiores as chances de viralizar.
Fique atento, caro leitor, até outubro, tentarão conquistar menos a sua consciência e mais as suas emoções. E talvez o maior ato de cidadania seja preservar aquilo que nenhuma urna pode devolver depois de perdido: a capacidade de dialogar, os vínculos afetivos e a própria saúde mental.
Vote. Defenda suas ideias. Fiscalize quem você escolher.
Mas não entregue sua paz, sua família e sua saúde emocional a uma disputa que, mais cedo ou mais tarde, termina.
A campanha está apenas começando.
Tomara que, ao fim dela, tenhamos escolhido nossos representantes sem perder aquilo que nos torna verdadeiramente humanos: a capacidade de pensar, dialogar e continuar sentando à mesma mesa, mesmo quando pensamos diferente.
Bem-vinda, eleições 2026!
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